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O
primeiro dia
Guttemberg
Guarabyra
Tentava chegar a Conceição do Mato Dentro ainda a tempo
de assistir ao jogo Brasil x França, na Copa do Mundo. Foi quando
passou, meio escondido na poeira, um barzinho de beira de estrada. Ao
ver o anúncio de cerveja, Zé Maria, que já reclamava
sua dose diária de cachaça, sempre administrada à
hora certa — cuja adminstração trata-se, segundo ele,
do segredo inadiável de sua longevidade —, abriu a porta
do carro e saiu rumo ao vento e à poeira da estrada. Consegui agarrá-lo
pela gola da camisa. Mas tive de parar a fim de que ele pudesse sorver
o sagrado gole de cada dia, antes de prosseguir viagem.
Para percorrer o sertão de Minas, anos inteiros, dispunha da casa
do mesmo doutor Zé Maria, como base de planejamento e reabastecimento,
em Belo Horizonte. Complementando esse apoio, utilizava também
diversos dos mais agradáveis bares da capital mineira. Em BH, sempre
vivi um vidão. Na estrada, porém, tive alguns percalços.
Num deles, em Pedra Azul — um estirão e tanto — Zé
Maria foi flagrado, numa fazenda onde rolava uma festa em nossa homenagem,
de joelhos, cantando a filha do fazendeiro. Por azar, quem o surpreendeu
nessa cena foi o noivo da moça. Tivemos de descer a Rio-Bahia mais
cedo do que desejávamos.
Outro estorvo deu-se — dessa vez fora de Minas, no Paraná
— quando tentamos viajar de Curitiba para São Paulo por um
caminho alternativo, enfrentando estradas de terra, através de
uma serra. Até daria para alcançar nosso objetivo desde
que, em vez de um automóvel de luxo, estivéssemos a bordo
de um jipe ou coisa parecida. Com seis horas de viagem já anoitecendo,
fundimos o motor e tivemos de nos hospedar em Itapetininga, para onde
fomos rebocados. Só partiríamos uma semana depois. Para
compensar o incidente, fizemos ali grandes amizades que perduram até
hoje.
Mas, como dizia, em BH a vida sempre correu mansa. Num dos réveillons
que passei por lá, na base de apoio, fui levar a namorada em casa
pouco antes da meia-noite, para que ela passasse a data com a família.
Ela ainda lembrou que eu havia deixado, no banco de trás do carro,
as roupas brancas, próprias para a passagem. Agradeci e firmei
aquilo na memória, não poderia esquecer o traje no carro,
pretendia raiar o ano vestido a caráter.
Belo Horizonte foi uma cidade planejada no papel. O projeto, escolhido
em concurso, é lindo. Principalmente para quem olha o desenho.
Trata-se de uma paisagem de flores múltiplas, rosas-dos-ventos,
que, depois de transformadas em cidade, proporcionaram dezenas de praças
com cinco e até seis ou mais ruas convergentes. Ou seja, os jurados
do concurso devem ter apreciado o projeto como um quadro. A cidade propriamente
dita, porém, depois de pronta, virou um desafio para os engenheiros
de trânsito. Orientar-se ali é uma façanha. É
assim que os convites para um encontro, em BH, sempre vêm acompanhados
de dicas minuciosas sobre como chegar ao local combinado.
Na ida, a namorada conhecia bem o caminho. Na volta, as rosas-dos-ventos,
nas praças, foram me enganando uma após a outra. Dessa forma,
foi-me impossível guardar o sentido de onde dobrar no cruzamento
de uma praça em que convergiam seis ruas, por onde passara na ida,
fazendo o sentido inverso. Naquela noite entendi que, Belo Horizonte,
na verdade, é um verdadeiro clube de esquinas. Resolvi então
parar e telefonar para pedir orientação à base. Zé
Maria deu umas dicas, mas alertou que eu estava totalmente fora da rota
e complementou alertando que já nos aproximávamos da meia-noite.
Voltando ao carro, observei a roupa branca no banco de trás, iluminada
por um poste de luz. A visão fez com que me animasse a encontrar
logo o caminho. Dei a partida e redobrei a atenção ao dirigir,
pois já começava o rush dos retardatários, que, para
não perder a hora da festa, dirigiam a toda. No entanto, poucos
minutos depois, começaram a espocar os foguetes.
Não acreditei que estava rompendo o ano-novo completamente perdido.
Estacionei numa rua deserta e arborizada. Os rojões subiam e descobri
que eram mais bonitos vistos dali, do meio da rua. Descobri também
que é um momento muito especial este, quando reiniciamos a trajetória
rumo ao outro lado da elipse que cruzamos ao redor do sol. Imaginei todos
no planeta fazendo juntos a mesma curva. E refleti se, de alguma forma,
não passa pela cabeça de todo o mundo, no último
segundo de cada ano, naquele átimo de tempo, que estão fazendo
a mesma curva, no mesmo grande barco azul que navega o espaço.
É uma pena que todos não percebam este momento incomparável
para se ter plena consciência de que o homem e o planeta formam
um mesmo corpo. E que as coisas são magicamente infinitas —
desde que não se deseje nada além de seguir a rota eternamente
descrita ao redor da estrela.
Perdido em Belo Horizonte, na cidade traçada de linhas, rosas,
vento e poesia, liguei o carro e parti sem rumo. Achei o destino por acaso,
quando já clareava o primeiro dia.
Linha Amarela
Guttemberg
Guarabyra
Segundo analistas, a impunidade de que goza os primeiros escalões
da sociedade e da política, reflete-se de maneira perniciosa em
toda a população, fazendo com que parte dela cometa delitos
sem acreditar que será castigada.
Há, porém, indícios de que nem sempre a punibilidade
contribui para o aperfeiçoamento de uma sociedade, ainda que isto
seja paradoxal. Nos regimes de força, como o da China, por exemplo,
apesar dos castigos severos impostos pela Justiça, o povão
continua o mesmo e, o Governo, com as repetidas execuções
sumárias e cruéis, por fuzilamento, torna-se a cada dia
mais criminoso — apesar de usar o método tirano sob o argumento
de que é aplicado justamente contra atos condenáveis. Vá
ser paradoxal adiante.
É evidente que, apesar dos maus exemplos que vêm (e como
vêm) de cima, a Justiça é essencial para o aperfeiçoamento
da convivência em sociedade, já que obriga as pessoas, sob
pena de castigo, a se comportar dentro das normas legais.
Mas no Brasil o Judiciário tem dado prova de que consegue corrigir
falhas até mesmo nos demais poderes que, por teoria, não
estão sob sua sujeição, com grande chance de que
isto influa num comportamento melhor da população. Foi assim
que, este ano, impôs ao Legislativo leis que, por negligência,
não tinha votado. E, no âmbito do Executivo, o predomínio
foi além e mais saudável. Depois de enquadrar as dezenas
de mensaleiros e outros cepeizados, conseguiu fazer com que Lula se livrasse
da maioria dos personagens suspeitos que trouxe com ele para o Planalto,
transformando seu segundo mandato numa administração mais
isenta, sem os dirceus, os palloccis, gushikens, e até lorenzettis,
que trabalhavam ainda mais próximos, no mesmo andar do palácio.
Tirando por aí, dá pra ver que a Justiça brasileira
está com tudo, pois consegue aprumar até poderes vacilantes.
Na China, apesar de ser mais severa, não conseguiu tanto. Joguem
suas mãos para os céus (não esquecendo de recolher
os anéis), nossos favorecidos fidalgos. Lá no país
amarelo, mês passado, um executivo foi executado (sem trocadilho)
sumariamente apenas por ter recebido o equivalente a um milhão
e seiscentos mil reais de propina. Aqui no Brasil, somente numa mesma
e recente semana, o ex-deputado Pedro Henry procurava persuadir uma juíza
de que não tinha recebido 4 milhões e seiscentos mil de
dinheiro fajuto, enquanto Valdemar Costa Neto, também ex da base
de Lula, declarava que tinha recebido do PT "apenas" 7 milhões
mal-explicados. Ora, só os empréstimos duvidosos tomados
pela dupla Delúbio & Varelo, somam 39 milhões. Dessa
forma, se a Justiça daqui fosse tão severa quanto a asiática,
a carnificina seria tão medonha e horripilante que simplesmente
se tornaria inaceitável para a índole do brasileiro —
embora não o fosse para o temperamento sempre exclusivista dos
comerciantes de velórios de luxo. Estes, naturalmente, clamam por
uma justiça cada vez mais chinesa. Com tanto dinheiro enrustido
pelos condenados do primeiro escalão, nada de melhor poderia acontecer
para seus negócios. Tanto viço e progresso no ramo dos enterros
seriam bem-vindos até para o futuro de Lula, pois teria nos papa-defuntos
uma fonte de apoio mortal (!), caso resolvesse mesmo tentar um terceiro
mandato. Desde que, é claro, cuidasse de andar constantemente na
linha. Uma justiça por demais amarela sempre pode acinzentar um
sonho a qualquer momento.
Quadro final
O MASP encerrou o ano com chave de ouro
Chester
voador
Guttemberg
Guarabyra
Vêm chegando o Natal e o Ano-novo. Novamente as famílias irão se reunir
para cear e brigar. Por mais que as recomendações e os votos sejam de
paz, assim que a terceira garrafa de espumante é esvaziada, as velhas
rusgas nunca resolvidas ameaçam transformar, novamente, o apetitoso chester
no bólide periódico que atravessa o espaço de noventa por cento das festas
de congraçamento familiar nos fins de ano. Ainda não houve teoria capaz
de explicar o fenômeno, mas dá pra evitar ser vítima das conseqüências
dessas comemorações antagônicas e hostis. Fórmula número um: dê um perdido
— como se diz no jargão policial, quando a patrulha desliga os sistemas
de comunicação e, mais tarde, ressurge dizendo que a unidade deve ter
entrado em área onde não havia sinal detectável. Desligue o celular e
vá ao cinema. Fórmula número dois: passe rapidamente pela festa e diga
que está ali apenas para dar um primeiro alô, vai fazer uma ligeira presença
em outras duas festas só para cumprimentar o pessoal, e, claro, voltará
correndo para terminar a noite em companhia da família querida. A partir
daí, siga a fórmula número um. Fórmula número três: vá à reunião mas mantenha-se
sóbrio durante toda a noite, custe o que custar. Na hora do quebra-pau,
você estará apto pra decidir se deve separar a briga, bater em retirada
ou, quem sabe, descontar com lucidez e consciência, toda a vileza que
aquele primo covarde lhe impôs na adolescência. Fórmula número quatro:
comece a beber em casa e já chegue de porre. Pra eles, será impossível
de esquecer. Pra você, impossível de lembrar.
Tutorial cívico
Na tela Dia da Agenda, pressione o navegador da esquerda para a direita
a fim de mover-se para frente e para trás, um dia de cada vez. Para mover
um evento para outro dia ou para outra hora, abra Opções e altere o dia
ou a hora. Na tela Congresso Nacional, delete tudo. Vai economizar ética
e memória.
História mal contada
Na entrega dos prêmios aos melhores do Brasileirão, assim que Lula surgiu
no telão, em mensagem gravada, despontou também a vaia. A classe mídia
não tocou no assunto. Mas a classe média não perdoa.
Hino recantado
Salvem o Corinthians / Da segunda divisão...
Rio
de alto a baixo
Guttemberg
Guarabyra
Lá do alto, olhos grudados na janela do avião, a visão
deslumbrante encanta. No salão de desembarque, segue esse clima
de que o mundo, até que enfim, pode ser um lugar feliz. Saltitante,
e pra sentir-me ainda mais leve, já que a bagagem demora a chegar
à esteira, vai bem uma ida básica ao banheiro. Ao entrar,
deparo-me com um funcionário estático e de braços
cruzados. A cada passageiro que entra no recinto, emite um soturno: “Não
tem água”. E você cai na real. Este é o legítimo
Rio de Janeiro. Nem três minutos tinham se passado desde o desembarque,
e o verdadeiro Rio já começa a transparecer. Lá fora,
o taxista, sem aviso ou consulta, opta por trafegar até o Leblon
via centro da cidade, “cortando caminho” e privando-me do
passeio pela orla. Tudo bem, estava mesmo saudoso do Centro. Fui office-boy
no pedaço e fazia tempo não o revia. A velha paisagem vai
se desenrolando ao mesmo tempo decadente e saudável: — um
meio-termo absolutamente estranho e indecifrável, feito de brisa
do mar e rostos melancólicos. Revi com gosto alguns cenários
antigos, mas ansiava por ver de novo o relógio da Central, no topo
da estação de trens. Quando os enormes ponteiros, que cobrem
cinco andares do prédio, surgiram ao longe, acometeu-me uma emoção
adolescente que logo se transformaria em decepção ao perceber
que se encontravam parados no tempo, marcando uma hora falida. De resto,
o prédio outrora majestoso acompanhava a decadência. Assim,
a cada esquina o Rio de verdade foi caindo na minha real. Já na
Zona Sul, dois seguranças que teoricamente deveriam proteger a
saída de um colégio, ignoravam solenemente o que ocorria
com o bando de adolescentes e preocupavam-se apenas com os picolés,
avidamente lambidos, que derretiam rápido demais, ameaçando
macular os uniformes impecáveis, a duzentos metros de onde, semana
passada, originaram-se as manchetes sobre o turista italiano que morreu
tragicamente durante um assalto.
Cidade Malavilhosa
Ainda assim, não desisti de procurar pelo encanto que me havia
acenado na aterrissagem. Larguei a bagagem no hotel e segui prontamente
para o bar predileto, onde uma garrafa de Black Label, já devidamente
paga no ano passado, ainda me aguardava. Como tira-gosto, uma pequena
porção de iscas de peixe. Como companhia, um bom livro.
O uísque estava excelente e a comidinha apenas regular. Melhor
continuar a leitura no hotel. Pedi a conta acrescida de um chopinho. Pra
lá de mal-tirado, o chope confirmava o que já sabia: —
faz anos não é servido um chope decente no Rio. Deixei de
lado. Pela porção de filé de peixe, partido em iscas,
quarenta pratas. Porém, como Deus é brasileiro, a situação
tende a melhorar em breve e a Cidade Maravilhosa voltará a ser
o que era: — uma promessa lá do alto e uma certeza cá
embaixo. A não ser que, além de brasileiro, o Homem lá
em cima seja também carioca. Aí, só rezando pro diabo.
Ou pedindo providências a São Paulo, que fica mais perto.
Campanha dirigida
Se vai dirigir, deixe o álcool para o carro.
Um bêbado na direção sempre acrescenta mais um cavalo
ao veículo.
Big
brothers
Guttemberg
Guarabyra
O Brasil e os Estados Unidos são dizigóticos – gêmeos
que nasceram de óvulos distintos e foram fecundados por diferentes
espermatozóides. Não passam de irmãos de parto. Nem
por isso deixam de possuir a misteriosa ligação imaterial
que une os gêmeos. Apesar do caráter diverso, sempre cruzam
as mesmas sinas. Escravizaram negros, lutaram na mesma Grande Guerra,
conquistaram cada um seu próprio faroeste e abrigam população
misturada de imigrantes. Mesmo divergindo nos meios – enquanto um
se transformou num brigão, o outro derrubou o imperador e proclamou
a República sem disparar nem sequer um tiro – convergem nos
fins e hoje coabitam o mesmo lar republicano e democrático. No
entanto, o mais fantástico desse cordão umbilical impalpável
trata-se da ocorrência, de tempos em tempos, de almas gêmeas
presidenciais e contemporâneas no comando dos países. Juscelino
e Kennedy eram almas gêmeas. FHC e Clinton. E, atualmente, Bush
e Lula. Estes, logo ao primeiro aperto de mão, reconheceram-se
de imediato. Ao fitar o brasileiro, o olhar antiterror do americano só
faltou representar o de um deus apaixonado, numa inequívoca prova
de irmandade à primeira vista. Lula logo o chamaria de companheiro.
A condição fraterníssima porém não
impede que marchem separados, ainda que pelo mesmo caminho. Dessa forma,
enquanto Bush vai sendo derrotado, Lula segue vitorioso. Bush elegeu-se
prometendo vingar a pátria dando cabo do eixo maldito. Lula elegeu-se
jurando guerra às privatizações. Bush tocou a bélica
trombeta. Mas Lula surpreendeu. Sacou do fundo do peito um dó pianíssimo
e acabou entoando um inesperado canto tucano. E, entre outras melodias,
já começou a privatizar. Nada que assuste, no entanto. Os
irmãos logo se encontrarão de novo na estrada (de nossa
parte, provavelmente privatizada) e seguirão o gêmeo destino.
Só ficarão surpresos ao descobrir que estavam andando para
trás.
Alerta fantasma
Toda vez que o dólar cai a bolsa sobe, e vice-versa. Esta parece
ser a única regra inflexível do mercado. No mais, não
há serviço de previsão que acerte os rumos da economia.
Todavia, melhor viver alarmado do que virar Bangladesh. Apesar de ser
o maior amontoado demográfico do planeta, Bangladesh não
faz parte. Não está inserido. Não havia recursos
ou meios que alertassem da chegada do ciclone. Os pescadores ao largo,
no mar, pegos de surpresa, navegaram para sempre. Milhares de fantasmas
vagarão aos ventos e às ondas. Se a bolha americana ou européia
ou russa ou chinesa ou brasileira estourar um dia, talvez alguém
no mundo dos inseridos perca tudo, suicide-se e vá navegar com
eles. Um luxo. Mesmo diante da tragédia mais funesta, o homo inclusus
tem ao menos o direito de optar se quer ou não continuar vivendo.
SOS
Deus salve a América. Aconselha-se a quem for marine, atacar de
ateu.
Eu era que
nem o Pereira
Guttemberg
Guarabyra
Na selva escura, em plena madrugada, muito dificilmente alguém
poderia pensar em fazer outra coisa que não fosse descansar e dormir.
Ainda mais estando em segurança e com a tribo bem vigiada pelos
sentinelas de plantão. Isso, naquele tempo. Mas nos dias de hoje,
de pouca selva e muita internet, às três da manhã
a gente pode até pensar em ir a um restaurante, se quiser sair.
Querendo ficar em casa, tem televisão e MSN. MSN é mais
legal. Tem gente de verdade do outro lado e o outro lado pode ser qualquer
lugar do mundo, como esse lado-você aí na Austrália.
Como é mesmo o nome daquele bicho que tem aí, que põe
ovos, embora seja mamífero? Tudo aí é estranho. Aqui,
só o que tem de estranho é que estou ficando de um jeito
que você precisava ver. Muito mal. Desde que você me ensinou
como usar esse negócio, já fiquei totalmente fora de forma
e pobre. Precisava ver o vírus que me levou o dinheiro. O banco
diz que não devolve porque esse vírus não tem cara
de vírus. Não entendi por que tenho de pagar o pato (o tal
bicho daí não tem cara de pato?), por sinal caríssimo,
se vírus é vírus e não precisa de cara. Estou
deprimido. Levanto à noite só pra tomar cerveja e chatear,
quer dizer, entrar no chat. Daí, estou andando todo torto, dei
um jeito de tanto ficar sentado. Tem uma coisa, porém, que não
posso contar. Caso contrário, vou ficar ainda mais abatido. E penso
nessa coisa toda vez que recebo as fotos de como você está
aí na Austrália. Cada dia mais bonita. A última fotografia
me deu vontade de te tocar, de levantar seus cabelos, afastá-los
lentamente de seu rosto e te beijar! Que saudade do seu olhar e de tudo,
de tudo o que você pode dar. Em todos os sentidos. Do cheiro, do
gosto, do tato, da voz. É muito triste pensar que, quanto mais
você fica linda, mais eu te perco. Isso é que me deixa arrasado.
Você precisava ver mesmo. Você aí desse jeito e eu
aqui todo torto. Ainda bem que as coisas devem começar a melhorar
agora, quando acabar meu último dinheiro. O vírus comeu
minha grana, mas, em compensação, antes que o álcool
acabe com meu fígado, vai acabar a cerveja. Antes saúde
que riqueza. Viu como estou ruim? Antigamente eu era que nem o Pereira,
lembra dele? Aquele que só pensava em dinheiro. Aquele trocaria
saúde por riqueza, não tenho a menor dúvida. Só
que ele custa a ficar doente e eu não. Agora mesmo, esse jeito
nas costas parece que é coisa muito mais grave. Está começando
a doer também o peito, as costelas, a barriga. Putz! Era isso que
eu não podia falar. Você sempre detestou homem barrigudo
e eu estou ficando com uma barriga enorme e te perdendo a cada dia, hora,
cerveja, MSN... Você precisava ver. Aliás, você NÃO
precisava ver. Você está aí toda linda e eu aqui de
um jeito que você, definitivamente, NÃO precisava ver.
In-Mural
Afundou, mas nunca chegou ao fundo. Parou no PSDB.
Ao passar a vida a limpo, escolha o melhor papel.
Noivou, casou, morreu... Difícil dizer em que ocasião foi
mais feliz.
O programa Smiles continua dando descontos. Cada vez menos sorrisos!
Fidelidade é o programa de pontos que resolve sua vida.
McJesus
Guttemberg Guarabyra
Foi lançado recentemente um livro no qual um especialista em comunicação
estuda Jesus Cristo sob o ângulo da propaganda e do marketing. O
autor, em entrevista na televisão, apresenta as parábolas
de Cristo como um grande exemplo de como o Mestre vendia bem seu peixe.
Acho realmente que as parábolas eram especiais. Utilizava além
disso, segundo o livro, muitos outros truques, ou ‘ferramentas’
como se diz no jargão dos profissionais modernos. Ainda não
li o livro, mas não acredito que o autor arrole entre as grandes
proezas publicitárias de Jesus o episódio em que, seguido
de grande multidão, passa por baixo de uma árvore, olha
para cima e divisa o baixinho e até então desconhecido Zaqueu
tentando apoiar-se nos galhos da arquibancada improvisada. O rico cobrador
de impostos aboletara-se ali apenas porque, devido à baixa estatura,
percebeu que seria a única maneira de ver o Messias. Como prêmio,
levou-o para jantar em sua casa pra lá de luxuosa, assim como a
todos os discípulos. Comeram e beberam do bom e do melhor. Para
quem não está vendo com bons olhos o fausto da ocasião,
e antes que a oposição gritante comece a censurar a comitiva
cristã, é bom lembrar que Jesus sabia a razão de
estar ali. Zaqueu, apesar de cobrar impostos e receber excelente quinhão
pelo trabalho que o tinha deixado riquíssimo, seguia estritamente
os princípios do cristianismo. Tanto que, em dado momento, o Mestre,
após interromper o jantar, lamber os lábios e limpar a barba
num fino guardanapo de linho, dirigiu-se docemente ao anfitrião...
E o convidou para ser um deles! Você recusaria um convite desses,
apresentado pessoalmente por Jesus Cristo? Pois Zaqueu recusou. Na saída,
tarde da noite, Jesus comentaria ter faltado muito pouco para que o baixinho
aceitasse o chamado. Vai ver era supersticioso. Seria o 13º discípulo.
O fato, porém é que o cristão milionário olhou
à sua volta (não devia ter bebido muito), comparou a paisagem
ao redor com o estresse e a fome dos futuros colegas, e elegantemente
recusou o convite. Mas o que isso tem a ver com propaganda? Não
faço a menor idéia, ainda mais levando-se em conta que o
fato não se concretizou. Todavia, creio que Zaqueu passaria à
história como um rico que quase chegou lá. Jesus, porém,
e como sempre, não foi pego de surpresa (sabia de antemão
até a hora da morte) e tinha plena ciência de que os ricos
são assim mesmo. Aliás, é aí que deve estar
a mensagem contida nessa história. Mas falando de propaganda e
cristianismo pra valer, o único comentário que faço
habitualmente diz respeito ao símbolo dos cristãos. O peixe.
Talvez tenha sido adotado porque Jesus, ao convocar Simão, o convidou
para ser ‘pescador de homens (este aceitou o convite, tornou-se
o primeiro apóstolo e Jesus deu-lhe o nome de Pedro – a pedra
basilar da nova crença). No entanto, caso o símbolo tenha
sido inspirado no milagre da multiplicação de pães
e peixes, reclamo com veemência a presença do pão.
Se a Igreja resolver aceitar a correção, ainda que tardia,
sugiro como novo símbolo a figura de um belo McFish. Peixe, pão
e a filosofia da Igreja de hoje, tudo numa imagem só. Perfeito!
Vai ser o anúncio do ano.
Cadeião
Guttemberg Guarabyra
Ainda quando Itamar estava na Presidência, escrevi carta pro cujo,
e que foi entregue, pedindo por novas cadeias. Ele deve ter lido e comentado:
“Esse Guarabyra é bem-intencionado”. Mas não
cuidou do assunto. Nem ele, nem FHC. E nem Lula, agora. Num País
em que as cadeias, das delegacias aos presídios, estão lotadas,
em vez de espanto com o que aconteceu agora em São Paulo, é
de se admirar que ainda não tenha ocorrido coisa pior do que o
levante do ano passado (2006). Porém, o mais grave, é que,
depois das ocorrências trágicas, quem tem e quem não
tem nada a ver com a revolução dos criminosos subitamente
se vê possuído por uma luz de genialidade. O políticos
têm soluções. Os juristas, idem. Os jornalistas, os
antropólogos, os datenas. A lista é imensa. Pedem desde
penas mais severas até uma polícia mais atuante. Uma polícia
mais atuante e penas mais severas levariam muito mais gente para as cadeias.
Nas cadeias, a convivência entre gangs e criminosos as transforma
numa assembléia permanente do crime. Além do inferno que
representam para quem vai parar ali sem culpa. Se tivéssemos mais
cadeias, os criminosos mais violentos estariam mais isolados, os primários
mais protegidos, e a população menos ameaçada. Aí,
poder-se-ía até começar a pensar no problema sob
o ângulo dos jornalistas, dos antropólogos e de quem mais
fosse. É comum que se relacione o sucesso da campanha de Nova Iorque
contra o crime com o rigor da “tolerância zero”. Mas
esquecem que Bill Clinton cumpriu o governo com a fama de ter construído
uma cadeia por mês, durante o mandato. Por lá, a cooperação
faz um bem danado, sem genialismos desnecessários. Por aqui, sobram
gênios. E cooperação, em ano eleitoral, é crime.
*
Guttemberg Guarabyra nasceu em Bom Jesus da Lapa, sertão baiano.
Cronista, cantor e compositor, forma com dois velhos amigos (Luiz Carlos
de Sá e Zé Rodrix) o consagrado trio Sá, Rodrix &
Guarabyra. Tem, como sucessos, Dona, Espanhola, Roque Santeiro, Sobradinho,
O Pó da Estrada e centenas de outras canções. Como
escritor, publicou a ficção O Outro Lado do Mundo.
Teatro
transparente
Guttemberg Guarabyra
Faz uns vinte anos, levei meu velho pai ao teatro. Confesso que raramente
me instalo numa cadeira de teatro. Ou de qualquer outra platéia.
Mesmo a de meus amigos e colegas músicos. Com trinta minutos de
função, ataca-me a síndrome de cair fora. Sinto-me
sufocado, ao ser obrigado a fixar-me num ponto. Não consigo. Se
sou eu, porém, quem está no palco, curto muitíssimo
meu trabalho. No palco, quero mais é permanecer. Na platéia,
quero cair fora. Meu pai sempre viveu no interior. Exceto até os
vinte e poucos anos, período em que residiu na Ilha do Governador.
Mas a Ilha era quase interior, no tempo da Guanabara de águas transparentes.
Fazia parte de um grupo atlético. Vôlei, muita natação.
Nadavam facilmente até a ilha D’água. Ida e volta.
E brigavam. Muito. Tratava-se de verdadeira mania a de bater em marinheiros
americanos. Ou de apanhar. Os marinheiros desembarcavam às centenas,
dos navios de guerra americanos, geralmente em escala de folga. O Rio
ainda não era uma cidade tão grande. E os marinheiros se
destacavam nas ruas. As meninas gostavam. Os namorados e irmãos,
não. Estranhamente, todos estavam preparados para a guerra. Inclusive
a torcida. E a briga era limpa. Não eram admitidos interferência
nem golpe baixo. Levei o velho lutador pra ver um ator famoso. E dos bons.
Achei que combinava. O espetáculo, porém, continha muitos
palavrões. E todos gratuitos. Meu velho, pastor batista, às
vezes ria. Mas acabou achando ruim. Eu também pensava que, naquele
momento, a moda dos palavrões gratuitos, criada para atrair um
público que adorava se sentir chocado, já havia passado.
No início, ela tinha servido como uma espécie de terapia
em grupo. Logo, porém, seguiu por um caminho sem sentido. Mas quem
sou eu para atacar de crítico. Personagens ridículos, claro,
têm lugar procedente na dramaturgia. Todavia, há peças
em que, para descrever um personagem ridículo, o ator tem que surgir,
no mínimo, sentado num vaso sanitário. E, não raro,
recitando um texto de varanda. E a varanda me remete de volta às
águas transparentes da Guanabara. Rapazes atléticos e jovens
soldados sangrando, suando. Mulheres lindíssimas. Um dia presenciei
dois tios elogiando um marinheiro com quem haviam disputado uma dessas
brigas do passado. Venceram. No entanto, depois que o americano desfaleceu,
permitiram que as irmãs e namoradas cuidassem dele, para que não
parecesse tão machucado quando regressasse ao navio. Vi nisso tudo
uma verdadeira homenagem. Deve ter sido por aí que o velho acabou
se deixando influenciar por uma doutrina moral um tanto deslocada do que
ocorria à sua volta. Viveu uma vida de teatro. Que sempre me encantou
e de cuja platéia jamais quis cair fora. Ator de sorte, meu pai
pôde representar textos que sempre combinavam perfeitamente com
ele.
Vivo
Vende-se celular com
pena pré-paga.
* Guttemberg
Guarabyra nasceu em Barra do Rio Grande (Diocese do bispo Cappio), sertão
baiano. Cronista, cantor e compositor, forma com dois velhos amigos (Luiz
Carlos de Sá e Zé Rodrix) o consagrado trio Sá, Rodrix
& Guarabyra. Tem, como sucessos, Dona, Espanhola, Roque Santeiro,
Sobradinho, O Pó da Estrada e centenas de outras canções.
Como escritor, publicou a ficção O Outro Lado do Mundo.
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