Brasil  , 04 de setembro de 2010



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Coluna do Guarabyra

O primeiro dia

Guttemberg Guarabyra

Tentava chegar a Conceição do Mato Dentro ainda a tempo de assistir ao jogo Brasil x França, na Copa do Mundo. Foi quando passou, meio escondido na poeira, um barzinho de beira de estrada. Ao ver o anúncio de cerveja, Zé Maria, que já reclamava sua dose diária de cachaça, sempre administrada à hora certa — cuja adminstração trata-se, segundo ele, do segredo inadiável de sua longevidade —, abriu a porta do carro e saiu rumo ao vento e à poeira da estrada. Consegui agarrá-lo pela gola da camisa. Mas tive de parar a fim de que ele pudesse sorver o sagrado gole de cada dia, antes de prosseguir viagem.
Para percorrer o sertão de Minas, anos inteiros, dispunha da casa do mesmo doutor Zé Maria, como base de planejamento e reabastecimento, em Belo Horizonte. Complementando esse apoio, utilizava também diversos dos mais agradáveis bares da capital mineira. Em BH, sempre vivi um vidão. Na estrada, porém, tive alguns percalços. Num deles, em Pedra Azul — um estirão e tanto — Zé Maria foi flagrado, numa fazenda onde rolava uma festa em nossa homenagem, de joelhos, cantando a filha do fazendeiro. Por azar, quem o surpreendeu nessa cena foi o noivo da moça. Tivemos de descer a Rio-Bahia mais cedo do que desejávamos.
Outro estorvo deu-se — dessa vez fora de Minas, no Paraná — quando tentamos viajar de Curitiba para São Paulo por um caminho alternativo, enfrentando estradas de terra, através de uma serra. Até daria para alcançar nosso objetivo desde que, em vez de um automóvel de luxo, estivéssemos a bordo de um jipe ou coisa parecida. Com seis horas de viagem já anoitecendo, fundimos o motor e tivemos de nos hospedar em Itapetininga, para onde fomos rebocados. Só partiríamos uma semana depois. Para compensar o incidente, fizemos ali grandes amizades que perduram até hoje.
Mas, como dizia, em BH a vida sempre correu mansa. Num dos réveillons que passei por lá, na base de apoio, fui levar a namorada em casa pouco antes da meia-noite, para que ela passasse a data com a família. Ela ainda lembrou que eu havia deixado, no banco de trás do carro, as roupas brancas, próprias para a passagem. Agradeci e firmei aquilo na memória, não poderia esquecer o traje no carro, pretendia raiar o ano vestido a caráter.
Belo Horizonte foi uma cidade planejada no papel. O projeto, escolhido em concurso, é lindo. Principalmente para quem olha o desenho. Trata-se de uma paisagem de flores múltiplas, rosas-dos-ventos, que, depois de transformadas em cidade, proporcionaram dezenas de praças com cinco e até seis ou mais ruas convergentes. Ou seja, os jurados do concurso devem ter apreciado o projeto como um quadro. A cidade propriamente dita, porém, depois de pronta, virou um desafio para os engenheiros de trânsito. Orientar-se ali é uma façanha. É assim que os convites para um encontro, em BH, sempre vêm acompanhados de dicas minuciosas sobre como chegar ao local combinado.
Na ida, a namorada conhecia bem o caminho. Na volta, as rosas-dos-ventos, nas praças, foram me enganando uma após a outra. Dessa forma, foi-me impossível guardar o sentido de onde dobrar no cruzamento de uma praça em que convergiam seis ruas, por onde passara na ida, fazendo o sentido inverso. Naquela noite entendi que, Belo Horizonte, na verdade, é um verdadeiro clube de esquinas. Resolvi então parar e telefonar para pedir orientação à base. Zé Maria deu umas dicas, mas alertou que eu estava totalmente fora da rota e complementou alertando que já nos aproximávamos da meia-noite.
Voltando ao carro, observei a roupa branca no banco de trás, iluminada por um poste de luz. A visão fez com que me animasse a encontrar logo o caminho. Dei a partida e redobrei a atenção ao dirigir, pois já começava o rush dos retardatários, que, para não perder a hora da festa, dirigiam a toda. No entanto, poucos minutos depois, começaram a espocar os foguetes.
Não acreditei que estava rompendo o ano-novo completamente perdido. Estacionei numa rua deserta e arborizada. Os rojões subiam e descobri que eram mais bonitos vistos dali, do meio da rua. Descobri também que é um momento muito especial este, quando reiniciamos a trajetória rumo ao outro lado da elipse que cruzamos ao redor do sol. Imaginei todos no planeta fazendo juntos a mesma curva. E refleti se, de alguma forma, não passa pela cabeça de todo o mundo, no último segundo de cada ano, naquele átimo de tempo, que estão fazendo a mesma curva, no mesmo grande barco azul que navega o espaço. É uma pena que todos não percebam este momento incomparável para se ter plena consciência de que o homem e o planeta formam um mesmo corpo. E que as coisas são magicamente infinitas — desde que não se deseje nada além de seguir a rota eternamente descrita ao redor da estrela.
Perdido em Belo Horizonte, na cidade traçada de linhas, rosas, vento e poesia, liguei o carro e parti sem rumo. Achei o destino por acaso, quando já clareava o primeiro dia.


Linha Amarela

Guttemberg Guarabyra


Segundo analistas, a impunidade de que goza os primeiros escalões da sociedade e da política, reflete-se de maneira perniciosa em toda a população, fazendo com que parte dela cometa delitos sem acreditar que será castigada.

Há, porém, indícios de que nem sempre a punibilidade contribui para o aperfeiçoamento de uma sociedade, ainda que isto seja paradoxal. Nos regimes de força, como o da China, por exemplo, apesar dos castigos severos impostos pela Justiça, o povão continua o mesmo e, o Governo, com as repetidas execuções sumárias e cruéis, por fuzilamento, torna-se a cada dia mais criminoso — apesar de usar o método tirano sob o argumento de que é aplicado justamente contra atos condenáveis. Vá ser paradoxal adiante.

É evidente que, apesar dos maus exemplos que vêm (e como vêm) de cima, a Justiça é essencial para o aperfeiçoamento da convivência em sociedade, já que obriga as pessoas, sob pena de castigo, a se comportar dentro das normas legais.

Mas no Brasil o Judiciário tem dado prova de que consegue corrigir falhas até mesmo nos demais poderes que, por teoria, não estão sob sua sujeição, com grande chance de que isto influa num comportamento melhor da população. Foi assim que, este ano, impôs ao Legislativo leis que, por negligência, não tinha votado. E, no âmbito do Executivo, o predomínio foi além e mais saudável. Depois de enquadrar as dezenas de mensaleiros e outros cepeizados, conseguiu fazer com que Lula se livrasse da maioria dos personagens suspeitos que trouxe com ele para o Planalto, transformando seu segundo mandato numa administração mais isenta, sem os dirceus, os palloccis, gushikens, e até lorenzettis, que trabalhavam ainda mais próximos, no mesmo andar do palácio.

Tirando por aí, dá pra ver que a Justiça brasileira está com tudo, pois consegue aprumar até poderes vacilantes. Na China, apesar de ser mais severa, não conseguiu tanto. Joguem suas mãos para os céus (não esquecendo de recolher os anéis), nossos favorecidos fidalgos. Lá no país amarelo, mês passado, um executivo foi executado (sem trocadilho) sumariamente apenas por ter recebido o equivalente a um milhão e seiscentos mil reais de propina. Aqui no Brasil, somente numa mesma e recente semana, o ex-deputado Pedro Henry procurava persuadir uma juíza de que não tinha recebido 4 milhões e seiscentos mil de dinheiro fajuto, enquanto Valdemar Costa Neto, também ex da base de Lula, declarava que tinha recebido do PT "apenas" 7 milhões mal-explicados. Ora, só os empréstimos duvidosos tomados pela dupla Delúbio & Varelo, somam 39 milhões. Dessa forma, se a Justiça daqui fosse tão severa quanto a asiática, a carnificina seria tão medonha e horripilante que simplesmente se tornaria inaceitável para a índole do brasileiro — embora não o fosse para o temperamento sempre exclusivista dos comerciantes de velórios de luxo. Estes, naturalmente, clamam por uma justiça cada vez mais chinesa. Com tanto dinheiro enrustido pelos condenados do primeiro escalão, nada de melhor poderia acontecer para seus negócios. Tanto viço e progresso no ramo dos enterros seriam bem-vindos até para o futuro de Lula, pois teria nos papa-defuntos uma fonte de apoio mortal (!), caso resolvesse mesmo tentar um terceiro mandato. Desde que, é claro, cuidasse de andar constantemente na linha. Uma justiça por demais amarela sempre pode acinzentar um sonho a qualquer momento.

Quadro final

O MASP encerrou o ano com chave de ouro

 

Chester voador

Guttemberg Guarabyra


Vêm chegando o Natal e o Ano-novo. Novamente as famílias irão se reunir para cear e brigar. Por mais que as recomendações e os votos sejam de paz, assim que a terceira garrafa de espumante é esvaziada, as velhas rusgas nunca resolvidas ameaçam transformar, novamente, o apetitoso chester no bólide periódico que atravessa o espaço de noventa por cento das festas de congraçamento familiar nos fins de ano. Ainda não houve teoria capaz de explicar o fenômeno, mas dá pra evitar ser vítima das conseqüências dessas comemorações antagônicas e hostis. Fórmula número um: dê um perdido — como se diz no jargão policial, quando a patrulha desliga os sistemas de comunicação e, mais tarde, ressurge dizendo que a unidade deve ter entrado em área onde não havia sinal detectável. Desligue o celular e vá ao cinema. Fórmula número dois: passe rapidamente pela festa e diga que está ali apenas para dar um primeiro alô, vai fazer uma ligeira presença em outras duas festas só para cumprimentar o pessoal, e, claro, voltará correndo para terminar a noite em companhia da família querida. A partir daí, siga a fórmula número um. Fórmula número três: vá à reunião mas mantenha-se sóbrio durante toda a noite, custe o que custar. Na hora do quebra-pau, você estará apto pra decidir se deve separar a briga, bater em retirada ou, quem sabe, descontar com lucidez e consciência, toda a vileza que aquele primo covarde lhe impôs na adolescência. Fórmula número quatro: comece a beber em casa e já chegue de porre. Pra eles, será impossível de esquecer. Pra você, impossível de lembrar.

Tutorial cívico

Na tela Dia da Agenda, pressione o navegador da esquerda para a direita a fim de mover-se para frente e para trás, um dia de cada vez. Para mover um evento para outro dia ou para outra hora, abra Opções e altere o dia ou a hora. Na tela Congresso Nacional, delete tudo. Vai economizar ética e memória.

História mal contada

Na entrega dos prêmios aos melhores do Brasileirão, assim que Lula surgiu no telão, em mensagem gravada, despontou também a vaia. A classe mídia não tocou no assunto. Mas a classe média não perdoa.

Hino recantado

Salvem o Corinthians / Da segunda divisão...

 

 

Rio de alto a baixo

Guttemberg Guarabyra


Lá do alto, olhos grudados na janela do avião, a visão deslumbrante encanta. No salão de desembarque, segue esse clima de que o mundo, até que enfim, pode ser um lugar feliz. Saltitante, e pra sentir-me ainda mais leve, já que a bagagem demora a chegar à esteira, vai bem uma ida básica ao banheiro. Ao entrar, deparo-me com um funcionário estático e de braços cruzados. A cada passageiro que entra no recinto, emite um soturno: “Não tem água”. E você cai na real. Este é o legítimo Rio de Janeiro. Nem três minutos tinham se passado desde o desembarque, e o verdadeiro Rio já começa a transparecer. Lá fora, o taxista, sem aviso ou consulta, opta por trafegar até o Leblon via centro da cidade, “cortando caminho” e privando-me do passeio pela orla. Tudo bem, estava mesmo saudoso do Centro. Fui office-boy no pedaço e fazia tempo não o revia. A velha paisagem vai se desenrolando ao mesmo tempo decadente e saudável: — um meio-termo absolutamente estranho e indecifrável, feito de brisa do mar e rostos melancólicos. Revi com gosto alguns cenários antigos, mas ansiava por ver de novo o relógio da Central, no topo da estação de trens. Quando os enormes ponteiros, que cobrem cinco andares do prédio, surgiram ao longe, acometeu-me uma emoção adolescente que logo se transformaria em decepção ao perceber que se encontravam parados no tempo, marcando uma hora falida. De resto, o prédio outrora majestoso acompanhava a decadência. Assim, a cada esquina o Rio de verdade foi caindo na minha real. Já na Zona Sul, dois seguranças que teoricamente deveriam proteger a saída de um colégio, ignoravam solenemente o que ocorria com o bando de adolescentes e preocupavam-se apenas com os picolés, avidamente lambidos, que derretiam rápido demais, ameaçando macular os uniformes impecáveis, a duzentos metros de onde, semana passada, originaram-se as manchetes sobre o turista italiano que morreu tragicamente durante um assalto.

Cidade Malavilhosa
Ainda assim, não desisti de procurar pelo encanto que me havia acenado na aterrissagem. Larguei a bagagem no hotel e segui prontamente para o bar predileto, onde uma garrafa de Black Label, já devidamente paga no ano passado, ainda me aguardava. Como tira-gosto, uma pequena porção de iscas de peixe. Como companhia, um bom livro. O uísque estava excelente e a comidinha apenas regular. Melhor continuar a leitura no hotel. Pedi a conta acrescida de um chopinho. Pra lá de mal-tirado, o chope confirmava o que já sabia: — faz anos não é servido um chope decente no Rio. Deixei de lado. Pela porção de filé de peixe, partido em iscas, quarenta pratas. Porém, como Deus é brasileiro, a situação tende a melhorar em breve e a Cidade Maravilhosa voltará a ser o que era: — uma promessa lá do alto e uma certeza cá embaixo. A não ser que, além de brasileiro, o Homem lá em cima seja também carioca. Aí, só rezando pro diabo. Ou pedindo providências a São Paulo, que fica mais perto.

Campanha dirigida
Se vai dirigir, deixe o álcool para o carro.
Um bêbado na direção sempre acrescenta mais um cavalo ao veículo.

 

 

Big brothers

Guttemberg Guarabyra


O Brasil e os Estados Unidos são dizigóticos – gêmeos que nasceram de óvulos distintos e foram fecundados por diferentes espermatozóides. Não passam de irmãos de parto. Nem por isso deixam de possuir a misteriosa ligação imaterial que une os gêmeos. Apesar do caráter diverso, sempre cruzam as mesmas sinas. Escravizaram negros, lutaram na mesma Grande Guerra, conquistaram cada um seu próprio faroeste e abrigam população misturada de imigrantes. Mesmo divergindo nos meios – enquanto um se transformou num brigão, o outro derrubou o imperador e proclamou a República sem disparar nem sequer um tiro – convergem nos fins e hoje coabitam o mesmo lar republicano e democrático. No entanto, o mais fantástico desse cordão umbilical impalpável trata-se da ocorrência, de tempos em tempos, de almas gêmeas presidenciais e contemporâneas no comando dos países. Juscelino e Kennedy eram almas gêmeas. FHC e Clinton. E, atualmente, Bush e Lula. Estes, logo ao primeiro aperto de mão, reconheceram-se de imediato. Ao fitar o brasileiro, o olhar antiterror do americano só faltou representar o de um deus apaixonado, numa inequívoca prova de irmandade à primeira vista. Lula logo o chamaria de companheiro. A condição fraterníssima porém não impede que marchem separados, ainda que pelo mesmo caminho. Dessa forma, enquanto Bush vai sendo derrotado, Lula segue vitorioso. Bush elegeu-se prometendo vingar a pátria dando cabo do eixo maldito. Lula elegeu-se jurando guerra às privatizações. Bush tocou a bélica trombeta. Mas Lula surpreendeu. Sacou do fundo do peito um dó pianíssimo e acabou entoando um inesperado canto tucano. E, entre outras melodias, já começou a privatizar. Nada que assuste, no entanto. Os irmãos logo se encontrarão de novo na estrada (de nossa parte, provavelmente privatizada) e seguirão o gêmeo destino. Só ficarão surpresos ao descobrir que estavam andando para trás.

Alerta fantasma

Toda vez que o dólar cai a bolsa sobe, e vice-versa. Esta parece ser a única regra inflexível do mercado. No mais, não há serviço de previsão que acerte os rumos da economia. Todavia, melhor viver alarmado do que virar Bangladesh. Apesar de ser o maior amontoado demográfico do planeta, Bangladesh não faz parte. Não está inserido. Não havia recursos ou meios que alertassem da chegada do ciclone. Os pescadores ao largo, no mar, pegos de surpresa, navegaram para sempre. Milhares de fantasmas vagarão aos ventos e às ondas. Se a bolha americana ou européia ou russa ou chinesa ou brasileira estourar um dia, talvez alguém no mundo dos inseridos perca tudo, suicide-se e vá navegar com eles. Um luxo. Mesmo diante da tragédia mais funesta, o homo inclusus tem ao menos o direito de optar se quer ou não continuar vivendo.

SOS

Deus salve a América. Aconselha-se a quem for marine, atacar de ateu.

 

Eu era que nem o Pereira

Guttemberg Guarabyra

Na selva escura, em plena madrugada, muito dificilmente alguém poderia pensar em fazer outra coisa que não fosse descansar e dormir. Ainda mais estando em segurança e com a tribo bem vigiada pelos sentinelas de plantão. Isso, naquele tempo. Mas nos dias de hoje, de pouca selva e muita internet, às três da manhã a gente pode até pensar em ir a um restaurante, se quiser sair. Querendo ficar em casa, tem televisão e MSN. MSN é mais legal. Tem gente de verdade do outro lado e o outro lado pode ser qualquer lugar do mundo, como esse lado-você aí na Austrália. Como é mesmo o nome daquele bicho que tem aí, que põe ovos, embora seja mamífero? Tudo aí é estranho. Aqui, só o que tem de estranho é que estou ficando de um jeito que você precisava ver. Muito mal. Desde que você me ensinou como usar esse negócio, já fiquei totalmente fora de forma e pobre. Precisava ver o vírus que me levou o dinheiro. O banco diz que não devolve porque esse vírus não tem cara de vírus. Não entendi por que tenho de pagar o pato (o tal bicho daí não tem cara de pato?), por sinal caríssimo, se vírus é vírus e não precisa de cara. Estou deprimido. Levanto à noite só pra tomar cerveja e chatear, quer dizer, entrar no chat. Daí, estou andando todo torto, dei um jeito de tanto ficar sentado. Tem uma coisa, porém, que não posso contar. Caso contrário, vou ficar ainda mais abatido. E penso nessa coisa toda vez que recebo as fotos de como você está aí na Austrália. Cada dia mais bonita. A última fotografia me deu vontade de te tocar, de levantar seus cabelos, afastá-los lentamente de seu rosto e te beijar! Que saudade do seu olhar e de tudo, de tudo o que você pode dar. Em todos os sentidos. Do cheiro, do gosto, do tato, da voz. É muito triste pensar que, quanto mais você fica linda, mais eu te perco. Isso é que me deixa arrasado. Você precisava ver mesmo. Você aí desse jeito e eu aqui todo torto. Ainda bem que as coisas devem começar a melhorar agora, quando acabar meu último dinheiro. O vírus comeu minha grana, mas, em compensação, antes que o álcool acabe com meu fígado, vai acabar a cerveja. Antes saúde que riqueza. Viu como estou ruim? Antigamente eu era que nem o Pereira, lembra dele? Aquele que só pensava em dinheiro. Aquele trocaria saúde por riqueza, não tenho a menor dúvida. Só que ele custa a ficar doente e eu não. Agora mesmo, esse jeito nas costas parece que é coisa muito mais grave. Está começando a doer também o peito, as costelas, a barriga. Putz! Era isso que eu não podia falar. Você sempre detestou homem barrigudo e eu estou ficando com uma barriga enorme e te perdendo a cada dia, hora, cerveja, MSN... Você precisava ver. Aliás, você NÃO precisava ver. Você está aí toda linda e eu aqui de um jeito que você, definitivamente, NÃO precisava ver.

In-Mural

Afundou, mas nunca chegou ao fundo. Parou no PSDB.

Ao passar a vida a limpo, escolha o melhor papel.

Noivou, casou, morreu... Difícil dizer em que ocasião foi mais feliz.

O programa Smiles continua dando descontos. Cada vez menos sorrisos!

Fidelidade é o programa de pontos que resolve sua vida.

 

McJesus

Guttemberg Guarabyra

Foi lançado recentemente um livro no qual um especialista em comunicação estuda Jesus Cristo sob o ângulo da propaganda e do marketing. O autor, em entrevista na televisão, apresenta as parábolas de Cristo como um grande exemplo de como o Mestre vendia bem seu peixe. Acho realmente que as parábolas eram especiais. Utilizava além disso, segundo o livro, muitos outros truques, ou ‘ferramentas’ como se diz no jargão dos profissionais modernos. Ainda não li o livro, mas não acredito que o autor arrole entre as grandes proezas publicitárias de Jesus o episódio em que, seguido de grande multidão, passa por baixo de uma árvore, olha para cima e divisa o baixinho e até então desconhecido Zaqueu tentando apoiar-se nos galhos da arquibancada improvisada. O rico cobrador de impostos aboletara-se ali apenas porque, devido à baixa estatura, percebeu que seria a única maneira de ver o Messias. Como prêmio, levou-o para jantar em sua casa pra lá de luxuosa, assim como a todos os discípulos. Comeram e beberam do bom e do melhor. Para quem não está vendo com bons olhos o fausto da ocasião, e antes que a oposição gritante comece a censurar a comitiva cristã, é bom lembrar que Jesus sabia a razão de estar ali. Zaqueu, apesar de cobrar impostos e receber excelente quinhão pelo trabalho que o tinha deixado riquíssimo, seguia estritamente os princípios do cristianismo. Tanto que, em dado momento, o Mestre, após interromper o jantar, lamber os lábios e limpar a barba num fino guardanapo de linho, dirigiu-se docemente ao anfitrião... E o convidou para ser um deles! Você recusaria um convite desses, apresentado pessoalmente por Jesus Cristo? Pois Zaqueu recusou. Na saída, tarde da noite, Jesus comentaria ter faltado muito pouco para que o baixinho aceitasse o chamado. Vai ver era supersticioso. Seria o 13º discípulo. O fato, porém é que o cristão milionário olhou à sua volta (não devia ter bebido muito), comparou a paisagem ao redor com o estresse e a fome dos futuros colegas, e elegantemente recusou o convite. Mas o que isso tem a ver com propaganda? Não faço a menor idéia, ainda mais levando-se em conta que o fato não se concretizou. Todavia, creio que Zaqueu passaria à história como um rico que quase chegou lá. Jesus, porém, e como sempre, não foi pego de surpresa (sabia de antemão até a hora da morte) e tinha plena ciência de que os ricos são assim mesmo. Aliás, é aí que deve estar a mensagem contida nessa história. Mas falando de propaganda e cristianismo pra valer, o único comentário que faço habitualmente diz respeito ao símbolo dos cristãos. O peixe. Talvez tenha sido adotado porque Jesus, ao convocar Simão, o convidou para ser ‘pescador de homens (este aceitou o convite, tornou-se o primeiro apóstolo e Jesus deu-lhe o nome de Pedro – a pedra basilar da nova crença). No entanto, caso o símbolo tenha sido inspirado no milagre da multiplicação de pães e peixes, reclamo com veemência a presença do pão. Se a Igreja resolver aceitar a correção, ainda que tardia, sugiro como novo símbolo a figura de um belo McFish. Peixe, pão e a filosofia da Igreja de hoje, tudo numa imagem só. Perfeito! Vai ser o anúncio do ano.

 

 

 

Cadeião

Guttemberg Guarabyra


Ainda quando Itamar estava na Presidência, escrevi carta pro cujo, e que foi entregue, pedindo por novas cadeias. Ele deve ter lido e comentado: “Esse Guarabyra é bem-intencionado”. Mas não cuidou do assunto. Nem ele, nem FHC. E nem Lula, agora. Num País em que as cadeias, das delegacias aos presídios, estão lotadas, em vez de espanto com o que aconteceu agora em São Paulo, é de se admirar que ainda não tenha ocorrido coisa pior do que o levante do ano passado (2006). Porém, o mais grave, é que, depois das ocorrências trágicas, quem tem e quem não tem nada a ver com a revolução dos criminosos subitamente se vê possuído por uma luz de genialidade. O políticos têm soluções. Os juristas, idem. Os jornalistas, os antropólogos, os datenas. A lista é imensa. Pedem desde penas mais severas até uma polícia mais atuante. Uma polícia mais atuante e penas mais severas levariam muito mais gente para as cadeias. Nas cadeias, a convivência entre gangs e criminosos as transforma numa assembléia permanente do crime. Além do inferno que representam para quem vai parar ali sem culpa. Se tivéssemos mais cadeias, os criminosos mais violentos estariam mais isolados, os primários mais protegidos, e a população menos ameaçada. Aí, poder-se-ía até começar a pensar no problema sob o ângulo dos jornalistas, dos antropólogos e de quem mais fosse. É comum que se relacione o sucesso da campanha de Nova Iorque contra o crime com o rigor da “tolerância zero”. Mas esquecem que Bill Clinton cumpriu o governo com a fama de ter construído uma cadeia por mês, durante o mandato. Por lá, a cooperação faz um bem danado, sem genialismos desnecessários. Por aqui, sobram gênios. E cooperação, em ano eleitoral, é crime.

* Guttemberg Guarabyra nasceu em Bom Jesus da Lapa, sertão baiano. Cronista, cantor e compositor, forma com dois velhos amigos (Luiz Carlos de Sá e Zé Rodrix) o consagrado trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Tem, como sucessos, Dona, Espanhola, Roque Santeiro, Sobradinho, O Pó da Estrada e centenas de outras canções. Como escritor, publicou a ficção O Outro Lado do Mundo.

Teatro transparente

Guttemberg Guarabyra


Faz uns vinte anos, levei meu velho pai ao teatro. Confesso que raramente me instalo numa cadeira de teatro. Ou de qualquer outra platéia. Mesmo a de meus amigos e colegas músicos. Com trinta minutos de função, ataca-me a síndrome de cair fora. Sinto-me sufocado, ao ser obrigado a fixar-me num ponto. Não consigo. Se sou eu, porém, quem está no palco, curto muitíssimo meu trabalho. No palco, quero mais é permanecer. Na platéia, quero cair fora. Meu pai sempre viveu no interior. Exceto até os vinte e poucos anos, período em que residiu na Ilha do Governador. Mas a Ilha era quase interior, no tempo da Guanabara de águas transparentes. Fazia parte de um grupo atlético. Vôlei, muita natação. Nadavam facilmente até a ilha D’água. Ida e volta. E brigavam. Muito. Tratava-se de verdadeira mania a de bater em marinheiros americanos. Ou de apanhar. Os marinheiros desembarcavam às centenas, dos navios de guerra americanos, geralmente em escala de folga. O Rio ainda não era uma cidade tão grande. E os marinheiros se destacavam nas ruas. As meninas gostavam. Os namorados e irmãos, não. Estranhamente, todos estavam preparados para a guerra. Inclusive a torcida. E a briga era limpa. Não eram admitidos interferência nem golpe baixo. Levei o velho lutador pra ver um ator famoso. E dos bons. Achei que combinava. O espetáculo, porém, continha muitos palavrões. E todos gratuitos. Meu velho, pastor batista, às vezes ria. Mas acabou achando ruim. Eu também pensava que, naquele momento, a moda dos palavrões gratuitos, criada para atrair um público que adorava se sentir chocado, já havia passado. No início, ela tinha servido como uma espécie de terapia em grupo. Logo, porém, seguiu por um caminho sem sentido. Mas quem sou eu para atacar de crítico. Personagens ridículos, claro, têm lugar procedente na dramaturgia. Todavia, há peças em que, para descrever um personagem ridículo, o ator tem que surgir, no mínimo, sentado num vaso sanitário. E, não raro, recitando um texto de varanda. E a varanda me remete de volta às águas transparentes da Guanabara. Rapazes atléticos e jovens soldados sangrando, suando. Mulheres lindíssimas. Um dia presenciei dois tios elogiando um marinheiro com quem haviam disputado uma dessas brigas do passado. Venceram. No entanto, depois que o americano desfaleceu, permitiram que as irmãs e namoradas cuidassem dele, para que não parecesse tão machucado quando regressasse ao navio. Vi nisso tudo uma verdadeira homenagem. Deve ter sido por aí que o velho acabou se deixando influenciar por uma doutrina moral um tanto deslocada do que ocorria à sua volta. Viveu uma vida de teatro. Que sempre me encantou e de cuja platéia jamais quis cair fora. Ator de sorte, meu pai pôde representar textos que sempre combinavam perfeitamente com ele.

Vivo

Vende-se celular com pena pré-paga.

* Guttemberg Guarabyra nasceu em Barra do Rio Grande (Diocese do bispo Cappio), sertão baiano. Cronista, cantor e compositor, forma com dois velhos amigos (Luiz Carlos de Sá e Zé Rodrix) o consagrado trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Tem, como sucessos, Dona, Espanhola, Roque Santeiro, Sobradinho, O Pó da Estrada e centenas de outras canções. Como escritor, publicou a ficção O Outro Lado do Mundo.

 

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Diretor de redação: Joaquim Alessi
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